Meu caro amigo, se me pudesses ouvir, eu percebo-te muito bem, mas discordo num aspectozinho:
Eu posso estudar para ser médico e a seguir estudar para ser advogado e deixam-me exercer as duas profissões… Se me fartar de estudar e trabalhar, se me fartar de gastar dinheiro a investir em equipamento, se me fartar de fazer sacrifícios para poder levar duas actividades em paralelo, se não tiver férias nem tempos livres, não posso exercer duas actividades para não te chatear? Tem calma que levas a tua melhor avante!
Ontem fiz parte do júri de Évora para o Festival da canção da RTP. Foi uma experiência interessante, da qual aproveitei para fazer umas reflexões cá à minha maneira:
A música é importante na vida das pessoas! E não me refiro só aos músicos, que precisam dela porque lhes alimenta o espírito, como a qualquer outra pessoa, mas porque lhes põe o pão na mesa. E ser músico em Portugal (e não só) tem muito que se lhe diga.
Mas o que é ser músico? É um profissional com carteira e com um estatuto bem definido? É uma pessoa que se exprime por via da música? É um intérprete, um escritor, um compositor, um produtor, um cantor, um técnico, um orquestrador, ou combinações destas e outras vertentes? Ser músico implica que não se possa ser outra coisa? Ou ser outra coisa exclui a possibilidade de ser músico? É-se músico porque se quer e se decide, porque é uma grande paixão ou porque se demonstra perante alguma autoridade competências suficientes para o grau? Eu não posso decidir começar a exercer medicina ou advocacia sem a aceitação da sociedade, não posso projectar uma ponte ou uma barragem sem ser acreditado para tal, não posso dar aulas numa Universidade só porque me apetece, não posso exercer uma panóplia de actividades sem ser devidamente treinado e acreditado para tal, mas poderei decidir tornar-me músico sem o escrutínio de outrem? Posso ter ou não treino na ciência musical, mas isso só por si torna-me músico?
Por outro lado eu posso pintar um quadro. Nada me impede. E posso cruzar-me com pessoas que se interessem por ele e mo peçam para si. E podem querer oferecer-me dinheiro em troca para o poderem pendurar na sua sala. Posso dançar na rua e alguém pensar que aquela dança devia ser feita num palco (nunca me acontecerá tal a mim, tenho a certeza mais que absoluta). Posso escrever uma história que pode interessar a muita gente, algo me me era intrínseco e interessa a quem tenha contacto com a escrita. Noutra perspectiva, eu posso decidir pegar em dinheiro meu, ou que alguém me empreste e posso criar uma empresa para produzir ou vender algo que eu pense ser uma boa ideia. E posso conseguir reaver o dinheiro que investi porque o “mercado” em que apostei me recompensou pela minha aposta e quer mais da minha ideia ou produto e por isso a empresa mantém-se no mercado.
A música tem de ser paga? A quem se paga a música? Eu pago a quem quero pagar quando compro produtos materiais ou imateriais relacionados com a música? O retorno monetário é proporcional à qualidade musical (o que quer que isso queira dizer)?
Sobre o festival diria que a produção altamente cuidada eleva a qualidade do espectáculo, mas também que a hegemonia, a isotropia e a homogeneidade se tornam cansativas. Dá ideia de ser como os backing vocals das 12 canções: as mesmas pessoas a fazer tudo e a revezarem-se. Tudo montado para a espectacularidade, mas perdoem-me a minha modesta opinião, estéril de ideias. Recuso-me a acreditar em fórmulas únicas e em formatos obrigatórios de defesa forçada da nossa etnicidade. Já pouca gente liga ao festival, mas acredito que não estamos a caminhar no sentido inverso. Ninguém espera surpresas… Eu pelo menos não espero e isso a mim causa-me desinteresse. Aliás eu consigo deixar-me surpreender diariamente por musicas fabulosas todos dias, graças à internet e graças ao facto de a aproveitar para ir à procura do que não conheço. Posso estar enganado, mas acredito que nos mata como inteligência colectiva, o facto de a esmagadora maioria não procurar e esperar que lhes dêem o “listener’s digest” em formato de briefing e se possível com um beat por trás para conhecerem enquanto se alienam a dançar numa pista qualquer.
Num fim de semana destes sentei-me em casa e escrevi três músicas vindas não sei de onde. Esta foi uma delas.
Fala de uma genuína admiração que tenho pela chuva. Pelo som e pela espectáculo visual que é o da precipitação a cair, pela riqueza que traz, pela falta que às vezes faz (como agora é o caso), pela poesia que evoca, enche-me o espírito. Se calhar por isso o meu subconsciente um dia pregou-me uma partida e fez-me sonhar um sonho algo estranho que ainda hoje consigo recordar em muitos detalhes como paisagens e pessoas.
Sonhei que caí e me tornei num rio. Por alguma razão que não consegui explicar, toda a gente fugia de mim (não bem como se foge da chuva (!)), como se fosse um perigoso assassino. Depois percebi que não era bem de mim que fugiam, mas antes de qualquer coisa que eu transportava e com ajuda de alguém comecei a procurar a única saída para o problema que era encontrar o mar e desaguar nele para afogar os problemas (que não sei quais eram). Lembro-me de chegar ao mar com grande sensação de alívio, numa praia paradisíaca, muito semelhante a uma que me é muito querida, mas antes tive de passar por um vale altamente industrializado, cheio de coisas muito estranhas e cinzentas e por isso me senti muito carregado. Lembro-me no fim de tudo de ter feito as pazes com quem tinha assustado… Vá-se lá perceber…
A letra está portanto mais romanceada, mas diz muito, num tom melancólico, da minha admiração pela chuva e pelo facto de as pessoas em geral não a apreciarem muito, excepto quando faz muita falta. Mas como gosto de campo e de campo verde, acho que só tenho é de gostar da chuva!
Apercebi-me que passaram dois anos inteiros desde o último post!
Porquê? Não sei bem explicar, mas aconteceram tantas coisas em dois anos. Em termos de música, em termos da minha música, passou-se tanta coisa mesmo! Nem saberia bem como começar… Mas apetece-me voltar a escrever umas linhas daqui para a frente porque se o que me interessa mesmo é o caminho e não tanto a meta, porque quando atinjo uma meta, estou logo a pensar noutra, apetece-me é falar do que está para vir.
Tenho tido ideias e tenho concretizado algumas. Fiz amigos novos que me trouxeram novas cores ao quadro e estou com vontade de dar mais passos e arriscar algumas coisas novas. Aqui vou eu não sei bem para onde…
Eu sei que me tenho de obrigar a escrever mais sobre uma data de coisas boas que se podem ouvir e que eu gosto de deixar registado, ou então coisas que acontecem, ou então coisas que aparecem, sei lá, mas a intensidade das coisas fora da bloggosfera não perdoa…
Entretanto vou cortar por agora a possibilidade de se comentarem os posts porque os spammers estão a abusar e começa a ser penoso abrir o email com todos os comentários que chegam às centenas por dia… Enfim, pode ser que a sua existência e modus operandi possa ter uma explicação e uma razão de ser, mas até que eu o compreenda desejo-lhes dez vezes o incómodo que provocam aos outros e que de uma vez por todas descubram um propósito para as suas vidas em vez de incomodarem os insignificantes como eu…
Se calhar a net tem de se controlar a si própria… se calhar é preciso, aqui também, existirem insectos e vermes para haver equilíbrio… sei lá, mas não há pachorra!
As feiras da música por esse mundo a fora não têm nada a ver com um ou outro modesto evento que às vezes visito em Portugal. Aqui não se vêm propriamente novidades e os representantes e vendedores esboçam uma pálida amostra do que se pode ter acesso no nosso país (o que convenhamos, corresponde à pálida realidade da oferta, infelizmente).
Tanto quanto percebo existe em Portugal um único retalhista que compreendeu o mundo em que está inserido, a avaliar pela sua presença nestes referidos eventos. Não vou passar a publicidade, mas só fazer referência a que me parece que pela sua posição no mercado, existe apenas uma loja em Portugal que já percebeu que existe a internet e que através dela chegamos com muita facilidade à Alemanha ou a Inglaterra, só a título de exemplo, ou melhor dizendo, pela web estes países chegam a nós com muito maior facilidade. Para bom entendedor, meia palavra basta!
Voltando às novidades da feira NAMM na Califórnia, este ano houve três coisas curiosas que me chamaram à atenção e guardei na memória e que passo a enumerar:
O JamHub (aqui na versão TourBus)
Como é que ninguém se tinha ainda lembrado disto? Uma caixinha onde todos os músicos se podem ligar, incluindo o baterista, especialmente se tocar com uma bateria digital e os vizinhos deixam de saber que as bandas existem! Eu sei de uns a quem me apetecia oferecer isto, mas devem ser demasiado harcore para aceitarem o sacrilégio de uma bateria dessas…
Cada músico pode definir a sua própria mistura e ouvir no seu par de headphones da melhor forma, sem ter de haver uma guerra de volumes e de vizinhos!
Além disso, nesta versão ainda há possibilidade de gravar performances em cartão digital e de ouvir acompanhado, por exemplo, de um ipod (passo a publicidade a mais este aparelho, enfim…).
Boa ideia e bem apresentada!

O pedal Fishman Aura Sixteen
Para quem, como eu, aprecia muito a reprodução de “imagens acústicas” da série Aura da Fishman, porque se gosta do som limpo e natural de uma guitarra acústica, seja ela de cordas de aço, cordas de nylon, 12 cordas, dreadnaught, jumbo, orchestra, resonator ou bandolim, eis que chega um pedal onde podemos carregar as imagens pretendidas através de um cabo USB, em vez de termos de comprar um pedal para cada um destes tipos de intrumentos, sendo que na realidade em cada um desses pedais (que até nem são baratos - mas são bons), acaba-se por só se usar um ou dois registos aos quais nos adaptamos e com os quais a nossa guitarra “casa bem”. Esta é uma grande notícia para mim, fã confesso destes aparelhinhos, que parece que vou poder reunir numa única caixa todas as imagens que realmente uso e ter toda a qualidade do som de estúdio num qualquer palco, pequeno ou grande!

A Martin Performing Guitar Series
Isto não representa uma novidade, mas antes três novidades: A Martin, construtor de guitarras pelo qual nutro especial admiração (apesar de se tratar de uma empresa grande e não precisar da minha compaixão), apareceu com três novos modelos com características revolucionárias, dedicadas a artistas de palco.
A electrónica parece ser o digno representante do estado da arte: pickup e pré-amplificador da melhor qualidade que nos habituou o staff da fishman, que inclui ainda: afinador, equalizador, anti-feedback e “imagens” Aura. A bateria e o botão para a fita de suspensão mudaram de posição e os comandos e LEDs de controlo são tão elegantes e funcionais que farão corar de inveja qualquer outro produto no mercado.
A forma da GPCPA1 faz lembrar muito uma Taylor, o que acho que é óptimo numa Taylor, mas nada de muito excitante numa MArtin e o pickguard com novo desenho, para mim, é demasiado curvilíneo e desrespeitador da elegância da herança de mais de 170 anos da marca, mas enfim… Pode-se sempre optar por uma DCPA ou OMCPA, com formas bem mais conhecidas nesta casa de construtores.
Algumas características únicas são a conjugação de vários factores únicos, como um braço redesenhado, um binding de madeira no corpo, na escala e na cabeça, o logo Martin vertical, típico das gamas altas, a escala, forra da cabeça e ponte em ébano e os embutidos madre-pérola exclusivos desta série, muito inusitados na Martin.
Vindo donde vem, tenho a certeza que é bom, mas gostava de experimentar para tentar perceber as diferenças. Mas aqui fica a nota.

Não tenho a certeza mas acho estar a repetir posts… talvez não. Em todo o caso, hoje acordei com isto:
Keep on riding the lightning!
Sempre achei o Bobby McFerrin um espectáculo, mas recentemente um amigo chamou-me à atenção para esta “performance”, que demonstra bem o quão genial e cerebral é o senhor, numa demonstração do poder da escala pentatónica e como ela nos está inculcada, sem sabermos explicar porquê…
Bem, já agora, não resisto a partilhar mais uma:
E mais uma:
Há imensa coisa, é só procurar!
Esta foi na rádio… uma rádio, não me lembro qual. O locutor comentava como a proximidade da natureza parece ter influenciado, nos últimos tempos, uma série de artistas na cidade de Portland. De todos os que mencionou, os únicos nomes que me ficaram na memória foi o de Peter Broderick e da irmã, Heather Woods Broderick, cujo primeiro disco, de Agosto deste ano, era final o verdadeiro objectivo da rubrica radiofónica.
Assim, e para cortar de certa forma com a onda do meu post anterior, porque melhor que qualquer tipo de atmosfera musical é a possibilidade de mudar essa mesma atmosfera, viajar e deixar-se viajar por locais interiores diferentes, ficam as propostas destes dois irmãos. Se ouvirem mais de algum deles, para lá das ocasionais incursões ao youtube, digam qualquer coisa, uma vez que o meu conhecimento não passa daí, mesmo que a curiosidade seja bem maior!
Finalmente decidi-me a ouvir um álbum dos White Stripes completo, em vez das músicas soltas na rádio/televisão e afins. Só que… quem ouve um, ouve dois (como as cerejas?), pelo que acabei por arranjar tanto Elephant como o Get Behind me Satan. Futuramente logo hei-de ouvir os anteriores e o(s) posterior(es), mas para já estes dois já chegam.
Bem… na realidade, quem é que eu estou a enganar? Não chegam nada! Eu é que não tenho carcanhol (ou paciência para sacar coisas pirateadas) para mais, nem tempo para ouvir a quantidade parva de coisas que me surgem à frente (o próximo projecto é ouvir blues antigos tipo Robert Johnson e Son House, e mais sei lá o quê a que esse caminho me levar).
Mas voltando aos White Stripes, finalmente! Até porque eu já estava à espera mas adorei o som deles. Finalmente, porque por muito que eu goste das coisas mais recentes que tenho ouvido nos últimos tempos, faltava-me algo actual mas com aquele som… cru que parece que no meu subconsciente estou sempre à procura. Não sei explicar, é assim meio visceral (mas não é suposto o rock ser assim meio visceral?). Provavelmente a minha conversa até aqui já dava para algumas consultas de psiquiatria mas… who cares! A verdade é que preciso disso.
A abordagem aparentemente imediata e verdadeira nas músicas deles (não interessa muito se o é na composição, o que interessa é a minha reacção a elas) é um pouco catártica, quando inevitavelmente todos (talvez não todos, mas a graaande maior parte) passamos os dias a ver onde pomos os pés.
Dos dois álbuns que ouvi, o Elephant é tão obviamente adequado aos meus gostos que até chateia. O Get Behind me Satan não é tão imediato mas também gostei bastante. Em todo o caso, nenhum dos dois me desiludiu, e só fico ansioso por mais. Mais White Stripes, mais rock a rebentar blues pelas costuras, mais verdade crua e primal na minha vida em geral!
E só porque é já são horas de ir beber umas cervejas e estar na palhaçada com amigos (mesmo que ainda tenha que ficar a trabalhar):